CryptoRave 2026

Código-fonte da expropriação: a educação brasileira e o colonialismo digital
09/05/2026 , Chelsea Manning (Auditório)
Idioma: Português brasileiro

Walter Lippold (PPGH-UFRGS e Coletivo Fanon), Cláudia Araújo (IFG/IEA-USP e Educa+AI) e Guilbert Kallyan(PSC - USP e PSOPOL - USP)

A luta pela soberania digital e popular brasileira, passa pela crítica do monopólio exercido pelas big techs e suas plataformas proprietárias de educação. Nesta palestra vamos apresentar e interpretar dados e documentos oficiais, como a Política Nacional de Educação Digital (PNED, Lei 14.533/2023), o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (2024-2028) e o Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação (2026). Através da análise de documentos e da realidade educacional do Brasil, denunciamos o poder do colonialismo digital nos sistemas educacionais brasileiros, rumo a uma engenharia reversa da ideologia californiana, que acompanha o tecnosolucionismo no campo da educação. Quando a educação e suas instituições escolares públicas adotam plataformas proprietárias como Google Classroom, Letrus ou qualquer plataforma de aprendizagem adaptativa, somos submetidos ao modelo de negócios das grandes empresas de tecnologias, big techs e edutechs, que fazem venda casada de seus produtos junto com ideologias que exaltam o empreendedorismo, as metodologias ativas, que sugam a pedagogia hacker, esvaziando o seu potencial revolucionário.


Esta atividade propõe uma análise crítica da plataformização da educação como leitura contra-hegemônica contemporânea do capitalismo de vigilância. Trata-se de um diálogo sobre colonialismo digital em um contexto de vigilantismo, acumulação primitiva de dados, e precarização do trabalho docente, propondo uma alfabetização digital crítica, fundamentada na pedagogia hacker, para o contexto educacional brasileiro, principalmente a formação de professores.
A atividade se desenvolve em três momentos:
Primeiro, a análise de documentos oficiais da educação brasileira e a crítica ao discurso da neutralidade da inteligência artificial, indicando que são sistemas construídos majoritariamente por homens brancos do Norte Global, treinados com dados que reproduzem disparidades de raça, gênero e língua, e que falham sistematicamente ao lidar com saberes do Sul Global, regionalismos e línguas minorizadas.
Segundo, o modelo de negócios das Big Techs na educação pública, em que a “gratuidade” das plataformas funciona como estratégia de extração de dados comportamentais de populações inteiras, ou seja, como colonialismo digital, uma forma de exploração que incide sobre a vida cognitiva e relacional das comunidades escolares, dimensionando os impactos para a subjetivação e socialização dos sujeitos. A partir do aporte psicológico, discutiremos os impactos subjetivos que a utilização de IA e de ferramentas digitais implica na subjetivação e socialização dos sujeitos, sobretudo na crítica ao modelo neoliberalizante ao qual esses se direcionam.
Terceiro, a precarização do trabalho docente por meio de sistemas nos quais os professores são reduzidos a utilizadores de interface, deslocados de sua autonomia pedagógica e de recursos formativos para questionar tais algoritmos, sendo direcionados a um modelo de neoliberalização das subjetividades como horizonte educacional.
Discutiremos também os limites da regulação brasileira atual (LGPD e PL 2338/2023) e o que uma regulação efetiva exigiria: transparência algorítmica, proibição do uso comercial de dados de estudantes e soberania digital como condição de qualquer contratação pública com empresas de tecnologia.
Essa proposta é sobretudo tecnopolítica. A tecnologia pode ser hackeada, tornada emancipatória, mas isso requer disputar quem a controla, quem define seus algoritmos e quem lucra com sua expansão nas escolas públicas, nos colocando a apresentar tais pontos objetivando uma crítica hacker-fanoniana a partir do panorama proposto.

Walter Lippold é professor do PPPGH-UFRGS. Membro do Grupo de Pesquisa História, Memória e Luta de Classes da Universidade Federal Fluminense, coordenando o tema História da Ciberguerra. Integra o Grupo de Pesquisa “Humanidades digitais e teoria da história: Recursos, ferramentas, aplicações computacionais e seus problemas para a historiografia no século XXI” da UFSC e pesquisa temas como colonialismo digital, história da tecnologia, cibercultura e hacktivismo. Membro do Coletivo Fanon, é autor de Fanon e Revolução Argelina (Autonomia Literária 2025) e, junto com Deivison Faustino, escreveu o livro Colonialismo Digital: por uma crítica hacker-fanoniana (Boitempo, 2023).

Este/a ponente también participa en :

Psicólogo Clínico | Psicanalista | Mestre em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFil) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) | Doutorando em Psicologia Clínica pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica (PSC) da Universidade de São Paulo (USP) | Pesquisador do Laboratório Psicanálise, Sociedade e Política (PSOPOL - USP)

Professora do Programa de Pós-graduação em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT/IFG)
Professora do Programa de Pós-graduação em Educação (IFG)
Pós-doutorado em Estudos Culturais pela Faculdade de Letras (UFRJ)
Doutorado e Mestrado em Educação (PUC-Goiás)
Pesquisadora da Cátedra de Educação Básica Alfredo Bosi (IEA-USP)
Pesquisadora do EDUCA+AI