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Performance: Essa cidade pode conter:

Uma instalação audiovisual que desvela as imagens de vigilância e controle da cidade de São Paulo

Essa cidade pode conter

“Essa cidade pode conter:” é uma instalação audiovisual inédita de Lucas Pretti e Tiago F. Pimentel que denuncia o sistema de vigilância e controle da cidade de São Paulo. Vamos transmitir para dentro da CryptoRave 2018 algumas imagens captadas pelo projeto City Câmeras, da Prefeitura, processadas num software de reconhecimento de objetos. O vídeo transmitido na instalação identificará, por exemplo, se há pessoas, mochilas, cadeiras, carros, motos, bebês, gravatas, entre outras 9 mil possibilidades de categorias. O público da CP acompanha o que está sendo transmitido em pontos movimentados da cidade, mas não apenas; assiste também a experiência do controle em si. É assim que o Estado nos vê.

Uma parede da CryptoRave 2018 exibe em tempo real durante toda a duração do evento algumas das imagens capturadas no projeto City Câmeras, criado pelo prefeito João Dória com a justificativa de “inibir a ação de criminosos e aumentar a segurança e o bem-estar da população”. A instalação site-specific “Essa cidade pode conter:” adiciona uma camada até então invisível ao grande público e ao imaginário deste projeto: a identificação de objetos. Utilizando-se do software de domínio público YOLO, sublinhamos o controle exercido pelo Estado sobre as imagens geradas e a tomada de decisões sobre padrões normalmente preconceituosos, como “detectar movimentos e padrões de comportamentos de acordo com a área definida, a fim de distinguir possíveis ameaças”. As aspas foram retiradas de materiais promocionais do projeto City Câmeras e do parceiro institucional, a plataforma de videomonitoramento on-line Camerite, baseada em Santa Catarina.

O YOLO parte de tecnologias de visão computacional, redes neurais e inteligência artificial. A imagem em anexo mostra um exemplo de como o programa identifica padrões, como “veículos”, “ciclista”, “pessoa” e “área vazia”. O Facebook também usa tecnologia semelhante de reconhecimento de imagem em todos os arquivos subidos por usuários e usuárias da rede social, com a justificativa da acessibilidade a pessoas com deficiência. Ou seja, qualquer imagem carregada no Facebook é acompanhada de uma descrição, “Essa imagem pode conter:” que serve de inspiração para o nome desta obra.

A cidade de São Paulo é a mais vigiada do país, com mais de 1 milhão de câmeras públicas e privadas (dado de 2015, fonte: Abese). Apenas o projeto City Câmeras tem o objetivo de instalar 10 mil novos pontos de controle financiados com dinheiro público. Esta obra não apenas denuncia esse fato, que passa despercebido pela maioria da população, como alerta para o perigo do crescente discurso político baseado na segurança pública entre diversos postulantes a cargos públicos neste momento de crise institucional e intervenção militar no Brasil. A execução da vereadora Marielle Franco, apenas para citar o caso mais recente e de maior repercussão, aconteceu numa área de sombra; seus assassinos sabiam que aquela era uma das poucas esquinas do Rio de Janeiro sem monitoramento digital.

A ideia do panóptico em São Paulo não é apenas um grande olho, mas milhares de olhos distribuídos pela cidade, conectados a um sistema nervoso central, de forma a colocar os próprios cidadão como agentes de vigilância. Ao abrir um ou vários desses olhos para o público da CryptoRave 2018, propomos gerar a sensação de estranhamento e culpa para quem os assiste, buscando desconstruir o argumento da segurança em nome da defesa da privacidade. Vigiar e controlar é o contrário do cuidado. É a cultura de guerra normalizada, como aponta o filósofo Giorgio Agambem neste trecho, que nos serve como referência:

“Não deveríamos surpreender-nos se hoje a relação normal entre o estado e os seus cidadãos é composta pela suspeita, pelo arquivamento policial e pelo controle. O princípio secreto que comanda a nossa sociedade pode ser assim formulado: todo o cidadão é um potencial terrorista. Mas que tipo de estado é este que se rege por um princípio desses? Podemos ainda designá-lo de estado democrático? Podemos ainda considerá-lo político? Em que tipo de estado vivemos hoje?”

Sobre os artistas

Lucas Pretti é artista, ativista da cultura livre e pesquisador. Em seu trabalho tem explorado as relações entre arte, cidade e tecnologia, se utilizando das redes informacionais como elementos de composição. Este assunto permeia seu trabalho de mestrado, "Poéticas do Comum", desenvolvido no Instituto de Artes da Unesp. Tem formação e carreira transdisciplinares. Foi membro da Casa da Cultura Digital, idealizou o movimento BaixoCentro e assinou a ação “Realidade Pintada” (2012). Como ator, integrou o Centro de Pesquisa Teatral (CPT-Sesc) e a Cia. Teatro Para Alguém. Site: http://lucas-et.al

Tiago F. Pimentel é artista multimídia, programador, hacker, pesquisador de redes digitais e ativista de causas como liberdade e privacidade na rede. Trabalhou em Brasília entre 2006 e 2010 na Coordenação Nacional do Projeto Casa Brasil, Integrou a Casa de Cultura Digital e é um dos idealizadores da CryptoRave, maior encontro aberto sobre criptografia e segurança do mundo. É sócio-fundador da Interagentes - Comunicação Digital e Diretor Geral da Associação Actantes - Ação Direta pela Liberdade, Privacidade e Liberdade na rede.