CryptoRave 2026

Certificação Orgânica Participativa e Agroecologia no Território Digital
09/05/2026 , Edward Snowden (Auditório da Hemeroteca)
Idioma: Português brasileiro

Essa proposta apresenta os Sistemas Participativos de Garantia (SPG) como tecnologias sociopolíticas chave para fortalecer a soberania alimentar na América Latina. Através das experiências de tecnologistas latinoamericanas (brasileira e argentinas), exploramos o histórico de nascimento dos SPGs, e sua potência como ferramentas com alta capacidade de replicabilidade e adaptação a distintos territórios. Essas ferramentas emergem desde articulações comunitárias, e desafiam modelos centralizados de certificação e validação. Os SPGs não apenas garantem práticas agroecológicas, mas também configuram infraestruturas coleticas baseadas na confiança e no cuidado.

Colocado o contexto dessas organizações sociais, discutimos o desenvolvimento de um sistema de gestão livre e de código aberto (https://speco.tekopora.top), que está em vias de ser consolidado como um recurso comum para a comunidade de SPGs brasileiros. Esse sistema foi co-construído pelo maior e pioneiro SPG da América Latina, Rede Ecovida, num processo contínuo que já leva mais de três anos. Nesse sentido, esta sessão traz a reflexão sobre o papel do cuidado no desenvolvimento participativo de tecnologias digitais para a agroecologia.

Num contexto de policrise e disputa pelos sentidos, os SPGs se colocam como uma solução tecnopolítica comunitátia que abre horizontes para imaginar e construir futuros coletivos mais justos e solidários.


A sessão está dividida em 3 partes: contextualização; recursos de tecnologia digital; e panorama de presente-futuro.

Na parte de contextualização, inscrita no campo de tecnopolítica em contexto rural, a proposta apresenta os Sistemas Participativos de Garantia como tecnologias fundamentais para a soberania alimentar na América Latina, atuando principalmente na certificação orgânica participativa.
No começo dos anos 2000, os SPG nascem como resposta crítica aos modelos de certificação hegemônicos, que impõem não apenas custos elevados, mas principalmente lógicas burocráticas de fiscalização incompatíveis com a pequena agricultura familiar.
A história da certificação participativa remete a movimentos agroecológicos que priorizam a confiança comunitária acima da validação institucional externa. O resgate dessa memória se propõe a inspirar a construção e consolidação de comunidades de software livre que se contraponham à hegemonia de ferramentas hegemônicas promovidas por grandes corporações.
Para ilustrar como ferramentas tecnológicas podem se enraizar em contextos diversos sem perder seu núcleo político, propomos a adoção de metáforas agroecológicas - como sementes, redes rizomáticas e ecossistemas autônomos.
Justo essa flexibilidade contextual é o que entendemos que permite o florescimento dessas organizações no Brasil, na Argentina, Uruguai e outros países latinoamericanos - sempre mediada por processos de apropriação local.

Na parte dos recursos de tecnologia digital, trazemos análises de dados de financiamento governamental no Brasil e na Argentina, onde políticas públicas têm começado a reconhecer o valor dos SPG como infraestrutura de soberania alimentar. Apresentamos aqui também o caso do Speco, um sistema de gestão em software livre, co-construído e financiado pela Rede Ecovida, em parceria com a Tekoporã. Esse sistema está em produção desde julho de 2025 e está em processo de consolidação como recurso comum aos SPGs brasileiros, e tem importante potencial de se expandir às organizações latinoamericanas.

Por fim, discutimos esse panorama de expansão latinoamericana, do ponto de vista técnico e político. Sob a perspectiva técnica, pontuamos o desafio de manter viva e coesa a comunidade de desenvolvedores, tecnologistas e usuários. Trazemos o fórum como ferramenta de compartilhamento de conhecimento e estratégias de implementação, além de trocas de saberes de distintas ordens.
Já do ponto de vista político, apresentamos primeiramente o processo de adoção do SPEco por 5 outros SPGs brasileiros, com uma profunda preocupação do cuidado com essas organizações. Esse cuidado se projeta no entendimento das peculiaridades de cada contexto, e no suporte ao desenvolvimento de customizações para apoiar essas peculiaridades. Também discutimos o processo de acompanhamento e construção de capacidade técnica dentre dos próprios SPGs para que o uso do sistema seja prazeroso e fonte de aprendizado para as pessoas envolvidas.

Concluímos com nossa visão sobre a adaptação desse sistema em outros países da América Latina. O futuro desse tipo de sistemas depende de manter a autonomia tecnológica frente a pressões de padronização institucional. Convidamos os participantes a refletir sobre métodos de escalar sem hierarquizar, de financiar sem cooptar, e de documentar sem represar a inovação.

Periodista transfeminista argentina.
Gestora e investigadora de proyectos de género, derechos digitales y cuidados comunitarios.
Redes latinoamericanas por la soberanía alimentaria.

Esta palestrante também aparece em:

formada engenheira eletricista de sistemas de potência, nádia transicionou para o campo de tecnologias agrárias a partir de sistemas de irrigação fotovoltaica.
depois de entrar em contato com o movimento agroecológico brasileiro, começou a orientar sua perspectiva para sistemas [digitais] que apoiem o trabalho coletivo e comunitário.
é co-fundadora e integrante do coletivo Tekoporã de software livre, e trabalha com a Rede Ecovida de Agroecologia há 3 anos.