CryptoRave 2026

Rastros do Real: forense de infraestrutura, classificação e a produção técnica do real
09/05/2026 , Terraço (3º piso)
Idioma: Português brasileiro

Como tratar ambientes de produção informacionais? Para além das narrativas do que é o Real. Que tipo de técnica forense podemos conceber para perceber como o Real é produzido?

Esta palestra apresenta resultados parciais do projeto de pesquisa The End of the Real, vinculado ao programa Organismo 2026 (Museo Nacional Thyssen-Bornemisza / Domestic Data Streamers), que investiga a produção técnica de realidade em contextos de vigilância, desinformação e mídia sintética. A partir de pesquisa de campo em Lesbos e Atenas e de análise de operações de influência digital em todo o mundo, propomos uma abordagem forense: em vez de desmentir narrativas falsas, examinar as infraestruturas (sejam elas algorítmicas, físicas ou burocráticas) que determinam o que conta como fato.

Discutiremos sistemas de vigilância de fronteiras (Hyperion, Centaur), tecnologias de mensuração contestada e a fabricação industrial de consenso. A palestra cruza sociologia da ciência e tecnologia, etnografia de infraestruturas e teoria crítica para pensar o que significa "verificar" quando os próprios instrumentos de verificação fazem parte dessa infraestrutura hegemônica.


A palestra se organiza em três movimentos:

No primeiro, apresentamos a metodologia forense desenvolvida no projeto. Três loops analíticos: o padrão inscrito (o que o sistema diz que faz), o log e suas ausências (o que o sistema registra e o que desaparece), e a recursividade (como o sistema responde à observação de si mesmo).
Essa metodologia foi utilizada em pesquisa de campo na Grécia, onde analisamos a infraestrutura de controle migratório da União Europeia: os sistemas Hyperion e Centaur nas ilhas do Egeu, drones e portões automatizados em Kara Tepe (Lesbos), e o robô quadrúpede Foundation Phantom MK-1 em testes de patrulha. Apoiados na etnografia de infraestruturas de Susan Leigh Star, tratamos esses aparatos como máquinas de produção ontológica. Dispositivos que constituem ativamente as categorizações que constroem a então chamada "Crise dos Refugiados": quem é "refugiado", quem é "ameaça", que é "fronteira".

No segundo movimento, ampliamos o enquadramento para a fabricação deliberada de consenso e desinformação. A operação Ghostwriter/Belarus como consenso manufaturado por aparato estatal, o Protest Counting Observatory e os protestos franceses de 2023 como mensuração contestada, e o ecossistema de mídia sintética como horizonte da crise epistêmica. A pergunta central: quando os instrumentos de verificação (câmeras, bases de dados, algoritmos de detecção, contagens oficiais) são eles mesmos parte da disputa e produtores contínuos do padrão inscrito, o que resta do "fato verificável"?

No terceiro, apresentamos uma posição que consideramos relevante para criar ações diretas com tecnologistas junto da recusa deliberada de produzir contra-narrativa. A postura de debunking frequentemente reforça a estrutura que pretende combater. A alternativa forense se concentra nas infraestruturas materiais e computacionais que tornam certas versões da realidade operacionais e outras invisíveis. Para comunidades de segurança e privacidade, isso significa deslocar o foco da "informação falsa" para as condições técnicas de produção do verificável.

Engenheira de Dados&AI na Thoughtworks Barcelona, com formação em ciências sociais. Trabalha na interseção entre infraestrutura de dados, sociologia da ciência e tecnologia e teoria crítica. Pesquisadora no projeto The End of the Real (Organismo 2026 / Museo Nacional Thyssen-Bornemisza / Domestic Data Streamers), onde investiga a produção técnica de realidade em contextos de vigilância e desinformação.