08/05/2026 –, Chelsea Manning (Auditório) Idioma: Português brasileiro
Cian Barbosa (Unifesp/UFRJ, colunista Opera Mundi), Deivison Faustino (USP, coautor de Colonialismo Digital) e Walter Lippold (UFRGS, coautor de Colonialismo Digital).
Essa mesa aborda três aspectos intrigantes das ciberguerras atuais: 1. a infraestrutura digital como extensão do complexo industrial militar 2. a mudança de paradigma dos sistemas autônomos de armas (AWS) para a sistemas totalmente autônomos de armas (FAWS) e 3. a dialética cibernética-cinética das novas tecnologias de morte. Os casos recentes de emprego de armas autônomas na indústria da morte, reflete uma tendente dissolução das fronteiras entre civil e militar, cinético e cibernético, de tal forma que podemos considerar todo o relevo digital como um campo onde ambas esferas coexistem simultaneamente. Esses sistemas são desenvolvidos para dinamizar e acelerar a chamada kill chain, literalmente a cadeia de produção da morte em organização industrial-militar, articulando o processo em escalas, do local ao global. Eles integram Big Data com informações de perfis pessoais nas redes, até a triangulação de dados geo-espaciais, para selecionar suspeitos e determinar execuções. Nessa integração, utilizam-se ativamente as I.A.s mais populares, como o ChatGPT, da empresa OpenAI, que firmou um contrato de 200 milhões de dólares com o governo Trump.
Acontecimentos recentes como o uso militar de Inteligência artificial no processamento de dados civis, como câmeras de trânsito, sistemas de informação em saúde e, sobretudo, das chamadas redes sociais para a escolha de alvos durante o genocídio palestino, na captura do presente em exercício da Venezuela, Nicolas Maduro, e no assassinato do Líder Supremo do Iran, Ayatolá Ali Khamenei (1939-2026) levanta a questão sobre a relação entre infraestruturas digitais internacionais e complexo industrial militar.
Ao mesmo tempo, a polêmica sobre o cancelamento de contrato do Pentágono com a Anthropic, na semana em que os EUA assassinaram o líder iraniano, levanta a dúvida sobre estarmos vivendo uma transição do paradigma dos sistemas autônomos de armas (AWS) para a sistemas totalmente autônomos de armas (FAWS). O uso de inteligência artificial na guerra, acompanha o desenvolvimento de ciberarmas e dispositivos não tripulados, operados remotamente ou por i.a., que servem a vários fins: desde o vigilantismo em massa à decisão de um drone executar ou não um alvo humano. O exemplo atual de uso da I.A. Lavender, e da nefasta Where is Daddy? utilizada pelos militares israelenses, para reconhecimento de alvos palestinos, reforça a necessidade de compreensão destas tecnologias. Por outro lado, o emprego drones de ataque ou contra ataque, GPS jamming ou clonagem de drones inimigos para confundir sistemas de defesa e ataque, apontam para novas dinâmicas cibernéticas ou cinéticas de morte.
A mesa propõe um crítica às visões meramente instrumentalista de tais tecnologias militares, como meros meios para determinados fins, na direção de entendê-las como "metafísica militar", em sua complexidade enquanto miscelâneas cognitivas, que afetam e reescrevem nossas ações e reações, tomadas de escolha e a própria mediação com a realidade, enquanto tomam o "mundo enquanto alvo". Diante dessas mudanças, o agente humano experiência interferências na relação sujeito/objeto (como no binômio usuário/interface), já que a tendência é de passar a se integrar como mais um elemento interativo dentro do sistema artificial. Essa é a tendencia de elisão do sujeito, inscrita nos princípios da automação indústria. Tecnologias digitais complexas — como é o caso daquelas organizadas por IAs em sua própria arquitetura —, podem levar à homogeneização de comportamentos, padronização de ações e até mesmo ciclos compulsivos. Quais são os impactos disso para pensarmos o próprio problema da agência e sua relação com decisões morais e a implicação ética?
Walter Lippold é professor do PPPGH-UFRGS. Membro do Grupo de Pesquisa História, Memória e Luta de Classes da Universidade Federal Fluminense, coordenando o tema História da Ciberguerra. Integra o Grupo de Pesquisa “Humanidades digitais e teoria da história: Recursos, ferramentas, aplicações computacionais e seus problemas para a historiografia no século XXI” da UFSC e pesquisa temas como colonialismo digital, história da tecnologia, cibercultura e hacktivismo. Membro do Coletivo Fanon, é autor de Fanon e Revolução Argelina (Autonomia Literária 2025) e, junto com Deivison Faustino, escreveu o livro Colonialismo Digital: por uma crítica hacker-fanoniana (Boitempo, 2023).
Deivison Faustino, também conhecido como Deivison Nkosi, é doutor em sociologia e professor do Departamento de Saúde e Sociedade da FSP-USP. Estuda a relação entre capitalismo, colonialismo e racismo, pensamento antirracista e as relações contemporâneas entre tecnologias digitais, sociedade e subjetividade, bom como a relação entre racismo algorítmico e digitalização da saúde. É autor de inúmeros livros e artigos sobre Frantz Fanon e as tecnologias digitais.
Sociólogo (UFF), doutor em Filosofia (UNIFESP), doutorando em psicologia (UFRJ), integrante do Laboratório de Psicopatologia Fundamental em Estudos sobre a Subjetividade e Emergências Humanitárias (PPGP/UFRJ). Coordenador e professor no Centro de Formação. Integrante da revista Zero à Esquerda e colunista na Opera Mundi.